Na morte de Herberto Helder

A incrível passagem do poeta por Vale de Figueira

Por: José Carlos Lucas

No passado dia 23 de Março morria na sua casa em Cascais, aos 84 anos, Herberto Helder. Considerado um dos maiores poetas portugueses de sempre.
A televisão e os jornais dedicaram grande parte do seu tempo e espaço à vida e obra daquele consagrado escritor.

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Herberto Helder remando nas águas do Tejo (foto gentilmente cedida por José Carlos Lucas).

Sabendo eu que o autor de “Os Passos em Volta” deu também os seus passos em volta de Vale de Figueira, nos anos de 1961, 1962 e 1963 (coisa de que quase ninguém sabe), lembrei-me de publicar esta passagem desconhecida da vida do poeta pela nossa Terra, onde muitos de nós tivemos o privilégio de receber das suas mãos os livros que trazíamos da carrinha da Biblioteca Itinerante n.º 16 da Fundação Calouste Gulbenkian para as nossas casas e da qual ele era o encarregado.

Homens e mulheres que nesses idos anos eram ainda crianças podem agora ficar a saber quem era a pessoa que lhes enchia as malas de livrinhos e os atendia carinhosamente. E assim acontece como nasceu na nossa aldeia um maior número de apaixonados leitores.

Desses leitores, dos poucos que nessa altura eram já adultos, posso eu garantir que só estão hoje vivos apenas três: eu, Manuel Ferrão da Costa e Carlos Morgado. Recordo também os nomes dos nossos saudosos companheiros, Adelino Raposeira, Carlos Barata, Júlio Marques, José Andrade Ferrão, porque foram todos estes os que mais vezes acamaradaram com o poeta.

Nos fins-de-semana, quando não os passava em Lisboa, era aqui junto à foz do Alviela, na Barreira da Bica, que ele os passava na nossa companhia. Vivemos nesses tempo horas inesquecíveis, preenchidas em alegre cavaqueira, com longas passeatas de barco, grandes pescarias e boas noitadas dormidas no chão ao luar perto da barraca do “Ti” Jaime Fernandes, onde eram enfim preparadas as abundantes almoçaradas e jantaradas servidas por aquele pescador avieiro e o seu filho Joaquim, meu colega carteiro.

Um dos belos poemas escritos pelo poeta – As barcas gritam sobre as águas – nasceu da sua inspiração quando ele próprio se divertia remando alegremente nessas águas, outrora límpidas, do rio. “E agora o rio Tejo acende-se no meio/de muitas palavras/Amor da vida do Tejo com a minha/ grande vida pura”.

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Herberto e alguns dos seus convivas. Da esquerda para a direita: Adelino Raposeira, Joaquim Fernandes, José Carlos Lucas, Herberto Helder e Vítor, motorista da biblioteca itinerante da Gulbenkian (foto gentilmente cedida por José Carlos Lucas).

Continuei a ver Herberto Helder pelos modestos bares do Largo da Misericórdia, em Lisboa. Avesso a quaisquer vaidades e ostentações, não dava entrevistas, recusou até um prémio de 10000 contos, não se deixava fotografar. As fotos que aqui dou a conhecer estiveram guardadas mais de 50 anos, foram obtidas por uma velhinha máquina Agfa e emprestada pelo Zé Margarido que a trouxe da Índia.

 

(Um agradecimento especial a José Carlos Lucas por esta preciosa partilha)